terça-feira, 9 de novembro de 2010

narrativa.

ela permanecia imóvel. a luz entrecortada pela respiração rarefeita e os olhos vermelhos que quase saltavam das órbitas. as veias desistiam do sangue, as horas desistiam do percurso-circular, e as palavras não se encontravam.
ele segurava a verdade como um buquê projetado na frente do seu peito. rosas. margaridas e girassóis amarelos. sorria como se o caos não pertencesse ao mundo real. realidade particular.a dois.
mesmo tremendo, as mãos se encontraram bem no meio do caminho. mesmo medrosos, os lábios se pertenciam.
e no final do dia o que se via era luz.forte como morte. mais forte que vida. meio dia à meia noite. sol inundando. a verdade sobrevive. o amor prevalece.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

petição

Dá-me a graça de ser desleixado. De andar descalço sobre o vidro, de não acertar o tom, distorcer acordes. Dá-me o dom de não ser perfeito, de sujar as mãos na lama e correr em linhas tortas. Ser corte profundo, cicatriz faminta, olhar estrábico e não pentear os cabelos automaticamente. Dá-me a coragem de ser avesso, subversivo, submerso, dormir de costas para superfície. Abraçar abismos e princípios. Dar a luz ao grotesco, ser filho da incoerência. Nascer real.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Sentido.

De onde as cores brilham como fogo, e tudo parece rimar com calmaria. Teu nome. O meu. O nosso. A linha contínua das nossas mãos entrelaçadas. Eu sussurro no escorrer dos dias preces e desejos de nós dois. Se te adoro é por me decorares tão bem, se te guardo nos olhos é por não querer nunca te deixar partir. De onde o abraço é aconchego certo e tudo parece cantar a mesma melodia. Teu corpo. O meu. O nosso. A constante de nossas vidas numa nota só.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Do que não exponho

O eco que o silêncio produz é reverberado por entre o dentro mais dentro que possuo. O mínimo movimento, mesmo mudo, incomoda. Do lado feito segredo não existe escuridão, luz, cor ou escalas de cinza, aqui, é tudo opaco. É o não dito, não pensado, sonhado ou quisto.
Dos movimentos abstratos e exagerados relacionados ao corpo visível, fica o essencial engasgado no oco das paredes esquecidas. Um amontoado não explorado, texto não lido, verdades talvez jamais traduzidas, regras não transgredidas... ali tenho medo da voz alta, o grito comum do cotidiano amedronta. Machucados ou não, cicatrizes ou carnes-vivas, do lado não exposto pouco importa nomenclaturas. O que se precisa é sossego, a olvides necessária do tempo.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Encontro

A mão passeia no tecido embranquecido explorando desde a textura ate os segredos tão guardados, tão intrínsecos, que uma vez já se deram por esquecidos. Os olhos caminham vendo padrões, absurdos, sistemas , caos, exatidão, impulsos, sanidades e coerências. A boca prova o gosto da palidez da saudade, do abandono, do medo, e a língua reconhece o gosto da insegurança, tão comum... uma vez envolto, o corpo recebe o calor do conhecido, as superfícies parecem se pertencer; do silêncio surge a coragem e o desejo de eternidade. E ali tudo se resume em plural.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Conclusão

Na dança do tempo só você não percebeu a finitude das coisas; o amarelo nas fotos, o branco dos cabelos, o bege das promessas e o cinza das letras antes em negrito, tudo se esvaindo por entre a corrida dos dias e das horas que hoje fazemos questão de contar. Palavras soltas no vento, juras que esquecemos de anotar, e que já nem acreditamos tanto assim... a poeira nos móveis, o cansaço das línguas, e a mesmice dentro dos olhos da vontade anestesiada de um dia recomeçar.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Dos dias de hoje.

Primeiro os terremotos. Depois as enchentes foram seguidas dos atentados. Acompanhados de tempestades absurdas, arrastões, explosões, dos vazamentos, dos assaltos em massa, depois saquearam simplesmente tudo, enfim, os apagões, a poluição sufocante, violências gratuitas e varias crianças mortas nas sarjetas.
Houve também as famílias se tratando como desconhecidos, a vegetação se recusando a acordar em primavera, o sol escurecendo sem eclipse. As chuvas ácidas, as pragas insistentes, as viroses aniquiladoras, a evasão, as lágrimas de sangue, e as palavras corrosivas.
Aconteceu exatamente assim, e posso inclusive dizer que muito mais que não deve ser dito em voz alta, pois logo em seguida houve a extinção dos dicionários, censura de palavras, queima de enciclopédias, o fim das conversas sem interesse, a abolição do jantar entre amigos, das cadeiras de balanço na calçada e dos telefonemas despretensiosos. A impessoalidade foi coroada: absoluta. E o horizonte já não era feito de sonho, foi esmagado pela realidade que doía desde os ossos até as almas densas demais, pesadas demais, feridas demais... Por fim, dormimos em silêncio, acordamos em silêncio.